sábado, 17 de dezembro de 2011

Poema de Almeida Garrett: que anjo és tu?

Anjo és tu, que esse poder 
Jamais o teve mulher, 
Jamais o há-de ter em mim. 
Anjo és, que me domina 
Teu ser o meu ser sem fim; 
Minha razão insolente 
Ao teu capricho se inclina, 
E minha alma forte, ardente, 
Que nenhum jugo respeita, 
Covardemente sujeita 
Anda humilde a teu poder. 
Anjo és tu, não és mulher. 

Anjo és. Mas que anjo és tu? 
Em tua fronte anuviada 
Não vejo a c'roa nevada 
Das alvas rosas do céu. 
Em teu seio ardente e nu 
Não vejo ondear o véu 
Com que o sôfrego pudor 
Vela os mistérios d'amor. 
Teus olhos têm negra a cor, 
Cor de noite sem estrela; 
A chama é vivaz e é bela, 
Mas luz não têm. - Que anjo és tu? 
Em nome de quem vieste? 
Paz ou guerra me trouxeste 
De Jeová ou Belzebu? 

Não respondes - e em teus braços 
Com frenéticos abraços 
Me tens apertado, estreito!... 
Isto que me cai no peito 
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me... 
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, 
Dou-me a ti, anjo maldito, 
Que este ardor que me devora 
É já fogo de precito, 
Fogo eterno, que em má hora 
Trouxeste de lá... De donde? 
Em que mistérios se esconde 
Teu fatal, estranho ser! 
Anjo és tu ou és mulher? 

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

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